Eu juro pela minha mãe mortinha que tenho tentado ser mais tolerante nesse mundão de meu Deus.
E olha, se eu jurei pela minha mãe mortinha pode acreditar que é sério.
Mas aí o estagiário chega atrasado em plena quarta-feira. Puta que me pariu! E eu avisei umas trocentas vezes que hoje meu chefe estaria no escritório. Vamos lá Samantha, concentra, exercita a tolerância.
Tudo bem se ele entra meio dia (MEIO DIA!!!!), 40 minutos é bobagem.
Tolerância. Tolerância. Tolerância.
Pronto. Passou.
Mas aí a mulher do distribuidor do fórum trabalhista que jura que é minha amiga de infância pergunta da Jad. E eu nem sei como ela sabe da Jad. Eu falei, ou não falei. Talvez ela seja bruxa. Tem cara e cabelo de. Pois é. Me pergunta. E eu queria que ninguém nunca mais no mundo todo me perguntasse dela. Queria ficar quietinha. Só eu e toda a minha dor de quem perdeu uma cachorra que sorria e que dormia e que virara de barriga pra cima só pra mim. Mas ela perguntou. Preciso dizer alguma coisa. Então falo que ela tá bem. Não importa que ela tenha morrido. Não quero falar nisso e ponto. Ela insiste. Quer sabe bem como. Então além de ressucitar a cachorra eu encerro a conversa dizendo que a Jad já tá tão boa que voltou a andar na rua. É tudo mentira, eu sei. Mas eu não quero falar nisso. Não quero que ninguém nunca mais no mundo me pergunte da minha cachorra. Quero ficar só eu e a minha dor. Só eu, ela e o sorriso sem dente que ela tinha.
Tolerância. Tolerância. Tolerância.
Mas aí eu fico 1:40h na fila do banco e o cidadão (vulgo bancário) ainda me oferece um investimento quando eu ia sacar o alvará. Se não fosse hoje, um dia que eu resolvi ser metodicamente tolerante, eu teria feito um puta discurso apaixonado sobre venda casada, código de defesa do consumidor e capitalismo. Calma, vai que dá.
Só respiração não dá dando certo. Viver num mundo que ninguém respeita ninguém é froid.
Lembro do Gustavo. Penso que eu preciso ser um ser humano melhor. Lembro de mamãe. Que falava sempre e pra todo mundo que meu apelido era crica. Já sabe por que né? É sempre assim que ela diz.
Final do dia. Vamos lá. Hoje tolerei o universo insuportável de gente. E eu não gosto de gente. Mas eu disfarço muito bem. Eu quase não gosto de ninguém que as poucas pessoas que eu gosto dá pra dizer assim, num minuto só.
Eu sou mesmo ranzinza. Mas tô tentanto acreditar que a tolerância é prática. Uma hora eu acostumo. Deve ser assim.
Hoje eu sorri, fui educada, simpática e nem fiz cara de quem tava comendo jiló. Eu nunca comi jiló na verdade. Mas posso imaginar como é.
Hoje eu nem reclamei das gordas que atrapalham a aula de boxe ou das pivetas que vão lá pra azarar alunos da medicina. Hoje não. Hoje eu fiquei quieitinha. Batendo muito calma e tolerante mente no meu saco.
Hoje eu não fui tão intolerante. Eu acho.







